A ENSE, enquanto entidade coordenadora do Grupo de Trabalho para a Transição Energética (GTE) da RELOP, promoveu, no passado dia 13 de outubro, o workshop subordinado ao tema “Descarbonização da Indústria e os Setores mais difíceis de eletrificar”. A iniciativa decorreu em formato online, contou com cerca de 48 participantes e oradores de Portugal, Angola e Brasil, proporcionando a partilha de conhecimentos e experiências sobre os desafios tecnológicos, económicos e regulatórios associados à descarbonização industrial.
A sessão foi iniciada por Fernando Martins, coordenador do GTE, que destacou a importância da indústria na transição energética e o papel da cooperação entre os países da RELOP na partilha de experiências e boas práticas. Renata Scotti, em representação da ANEEL e enquanto vice-coordenadora do Grupo de Trabalho, reforçou a relevância do tema, salientando os desafios globais da descarbonização industrial e as oportunidades associadas à elevada incorporação de fontes renováveis na matriz elétrica brasileira.
A primeira intervenção esteve a cargo de Teresa Ponce de Leão, Presidente do Conselho Diretivo do LNEG – Laboratório Nacional de Energia e Geologia, que apresentou os principais desafios e oportunidades da descarbonização industrial em Portugal. Destacou que a transição energética exige mais do que a substituição de fontes de energia, implicando uma transformação tecnológica, económica e organizacional dos processos industriais. Abordou o potencial de diferentes soluções, nomeadamente a eletrificação, a eficiência energética, o biometano e o hidrogénio, sublinhando a importância do planeamento, da avaliação da maturidade tecnológica e da adequação das soluções às necessidades de cada indústria. Apresentou ainda instrumentos desenvolvidos pelo LNEG, como os atlas nacionais do biometano e do hidrogénio, enquanto ferramentas de apoio à identificação de oportunidades de investimento.
De seguida, António Manuel da Silva, do IRSEA – Instituto Regulador dos Serviços de Electricidade e de Água, apresentou a experiência de Angola na transformação do setor elétrico e na redução das emissões associadas à produção de energia. Na sua intervenção, destacou a evolução de um sistema anteriormente marcado pela elevada dependência da produção térmica para uma matriz com maior incorporação de fontes renováveis, sobretudo hídricas e solares. Evidenciou ainda os investimentos realizados na expansão da capacidade de produção e no reforço das redes de transporte e distribuição, bem como os desafios que persistem ao nível da interligação dos sistemas elétricos, da inovação tecnológica e do financiamento da transição energética.
A perspetiva brasileira foi apresentada por Pedro Mello Lombardi, Coordenador-Geral de Finanças Verdes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços do Brasil, que abordou a descarbonização industrial enquanto oportunidade de modernização tecnológica e reforço da competitividade. Destacou os desafios enfrentados pelos setores industriais de difícil descarbonização, como o aço, cimento, química e vidro, salientando que a eletrificação, embora fundamental, não constitui uma solução viável para todos os processos produtivos. Apresentou ainda a Estratégia Nacional de Descarbonização Industrial do Brasil, destacando a importância da inovação, do financiamento e da articulação entre as políticas energética, industrial e climática para promover investimentos em tecnologias de baixo carbono.
A última intervenção coube a Vita Mateso, Diretor da Direção de Integração Energética e Biocombustíveis da ANPG, que apresentou os desafios da descarbonização do setor petrolífero em Angola. Na sua exposição, abordou as principais fontes de emissões ao longo da cadeia de valor do petróleo e gás, destacando as dificuldades associadas à eletrificação das instalações offshore, devido à sua localização e aos custos das infraestruturas necessárias. Apresentou ainda iniciativas de redução de emissões, incluindo a melhoria da eficiência energética, a redução da queima e das fugas de gás, a captura e armazenamento de carbono e o desenvolvimento de combustíveis alternativos, sublinhando a necessidade de conciliar a viabilidade económica com os objetivos de descarbonização.
O workshop evidenciou que a descarbonização industrial não depende de uma única solução tecnológica, exigindo uma abordagem integrada que combine a eletrificação com outras alternativas de baixo carbono, de acordo com as especificidades de cada setor. Neste contexto, o planeamento dos investimentos, a inovação tecnológica, o financiamento e a cooperação entre entidades assumem um papel determinante para assegurar uma transição industrial sustentável e competitiva.
Esta iniciativa integrou o ciclo de workshops promovido pelo GTE da RELOP em 2026, reforçando o compromisso da ENSE e da RELOP na promoção da cooperação técnica e regulatória entre os países de língua portuguesa.